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Cáritas Diocesana de Tianguá

Abolição, Apagamentos e Desafios Contemporâneos

25 de março de 2026

25 de Março é a data que marca o pioneirismo do Ceará na abolição da escravidão. O estado antecipou-se, em quatro anos, à Lei Áurea que foi promulgada em 13 de Maio de 1888. A Data Magna é símbolo de resistência e luta por liberdade, no entanto, é preciso refletir sobre apagamentos e desafios que ainda permanecem no contemporâneo e deixam claro escravidões que perduram.

Verônica Isidório, agente Cáritas de Crato, afirma que a data é de extrema importância para a população do Ceará e, especialmente, para a população negra, no entanto, reflete sobre como a história nos foi contada. “O que nos foi dito é que a abolição da escravatura se deu a partir, unicamente, de uma elite branca, deixando de lado importantes representações da historiografia do nosso Estado. Lideranças negras como Dragão do Mar e José Napoleão foram esquecidas e esse expressivo apagamento das identidades negras enfraquece as existências negras”.

“No Porto do Ceará não se embarcam mais escravos”. É possível que nos lembremos desta famosa frase de Francisco José do Nascimento, o Dragão do Mar, que marcou a greve dos jangadeiros em 1881, mas há apagamentos profundos na história que comprometem o direito à memória. Fazendo um recorte de gênero Verônica traz à tona a invisibilização da participação das mulheres neste movimento e afirma que “Preta Tia Simoa, casada com José Napoleão, foi uma das figuras mais importantes deste momento histórico. Mobilizou mais de 1.000 pessoas para esta luta e, ainda assim, não se ouve falar dela”. Na invisibilidade também ficou Ana Sousa, que, junto com Preta Tia Simoa, fez parte do movimento dos jangadeiros pelo fim da escravidão.

Dulce Fabián concorda que é preciso recontar a história para que se possa destacar a importância das lideranças femininas negras. Para a agente Cáritas de Crateús, a Data Magna é mais que uma celebração e sim uma oportunidade de “dar voz e espaço para que as mulheres sejam protagonistas de suas histórias, de suas lutas, de suas conquistas. Para mim, que sou mulher negra, percebo que a história do nascimento desta data ainda é vista como “bondade” dos brancos para com os escravizados. Pouco se fala das contribuições de homens e mulheres negros e negras que foram resistência, que perderam a vida, que lutaram para esta liberdade”.

Milena de Oliveira, agente Cáritas de Iguatu, reforça a importância do fato histórico, mas concorda com Dulce. “Parece que a gente ainda está devendo. Parece que a libertação do povo preto foi um favor que fizeram. Não foi um favor, foi muito sangue derramado e sangue de mulheres”, diz ela. Seguindo a cruel lógica do apagamento, pouco se fala de Maria Lúcia Simão Pereira. Foi através do pensamento e da ação desta mulher negra que a questão da negritude no Ceará começou a ser pensada e isso, em plena Ditadura Militar. Teóloga e Filósofa, Lúcia foi empregada doméstica e servidora pública, mas, principalmente, foi uma intelectual orgânica considerada fundamental para a expansão das discussões raciais e da luta antirracista no Brasil, tornando-se referência internacional.

A História também se faz no presente. Ana Vitória lembra que “essa abolição, embora formalizada, não se encerrou em seus efeitos”. A fala da agente da Cáritas de Fortaleza nos leva a pensar sobre os desafios que ainda persistem no mundo atual. “Quantas mulheres de nós negras que não temos nem o direito de falar, em pleno século XXI, o que estamos sofrendo! Cada dia que passa a violência aumenta e se a gente observar, acontece mais com as mulheres negras”. A revolta de Maria Norma Nascimento, agente Cáritas de Tianguá é legítima. O número de casos de feminicídio aumentou de forma alarmante no Brasil. Em 2025 foram 1.568 vítimas, o que significa um alta de 4.7% em relação ao ano anterior.

Ana Vitória conta que é a primeira pessoa da família a ter acesso a universidade pública, ressalta o racismo estrutural e lembra que, no curso de Agronomia da Universidade Federal do Ceará, muitas vezes era a única estudante negra na sala de aula. As violências são inúmeras e às vezes, tão sutis, que só quem é negro sabe e sente. Dulce faz uma pergunta de extrema relevância: “será que ser livre é ainda, para nós negros e negras, continuarmos tendo que no cotidiano nos defendermos dos preconceitos, do racismo, da violência, da morte?” Responder, com um sonoro “NÃO”, a essa pergunta só pode acontecer com a colheita dos frutos do trabalho irmanado, coletivo, pautado pelo respeito e pela lógica de direitos de cidadania.

Milena chama para os anúncios que, para ela, estão “nos jovens que se posicionam e se olham com mais afeto. Nos homens negros que desconstroem o estigma do trabalho braçal e da hiperssexualização. Quando um de nós se ver, vê o outro e isso gera força. Ser e existir para além de resistir. É preciso ver as doçuras”. Essas doçuras, afetos e anúncios estão, também, no trabalho cotidiano dessas mulheres que atuam no chão dos territórios unindo força e sensibilidade e promovendo, como diz a missão de Cáritas, toda forma de vida.

Zoraia Nunes

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